Adam para o Independent: “Eu nem sei mais o que o Maroon 5 é… nós ocupamos um espaço estranho”

O site britânico Independent publicou, nesta quarta-feira, uma nova entrevista com Adam Levine, onde o vocalista do Maroon 5 fala sobre a mensagem por trás do clipe de “Girls Like You”, as mudanças na sonoridade desde o “Songs About Jane”, as críticas e, claro, sobre o The Voice.

Leia a matéria traduzina na íntegra:

Adam Levine: “Eu nem sei mais o que o Maroon 5 é… nós ocupamos um espaço estranho”

Exclusivo: o líder da banda de pop rock americana fala sobre o clipe de “Girls Like You”, a longevidade da banda, e o porquê ele não liga de ter sido chamado de “estúpido” por Noel Gallagher.

Só levou uma ligação telefônica reagendada para conseguirmos falar com Adam Levine, líder do Maroon 5 e técnico no programa The Voice, aparentemente bem animado enquanto dirigia voltando de um compromisso em LA. Ele está bem falante – para alguém que concede tão poucas entrevistas hoje em dia, esperávamos que ele estivesse mais fechado ou se recusasse a falar sobre certos assuntos. Mas muito pouco foi deixado de lado.

Levine liderou o Maroon 5 por mudanças na banda, alterações dramáticas na sonoridade e milhões de vendas; chegando ao segundo lugar na Billboard 200 com o sexto álbum “Red Pill Blues” (“Sempre em segundo!”, diz Levine, fingindo mau humor. “Derrotados pelo seu conterrâneo Sam Smith. Eu acho ele fantástico”, ele adiciona. O álbum contou com diversas colaborações desde SZA (What Lovers Do) e A$AP Rocky (Whiskey) e continuou o reinado da banda como uma das atrações de maior sucesso de todos os tempos.

Fato: o clipe de “Girls Like You”, que conta com a colaboração da rapper Cardi B, atualmente está no topo do Youtube americano. Muito do charme do clipe se deve às várias mulheres inspiradoras que Levine convidou para o clipe, 25 no total, incluindo a renomada apresentadora, comediante e ativista LGBT+, Ellen DeGeneres; a ginasta americana Aly Raisman; a esquiadora Chloe Kim, que aos 17 anos se tornou a mulher mais jovem a disputar uma medalha olímpica esquiando; a atriz trans Tracy Lysette; a estrela do filme Girls Trip Tifanny Haddish, e ativista imigratória Angy Rivera.

“Eu amo esse clipe”, Levine diz. “Eu me esforcei mais para fazer esse clipe com David Dobkin [diretor] do que qualquer outro que tenhamos feito. Nós sentamos e ouvimos a música umas 150 vezes e tentamos decidir sobre o que ela se tratava… como melhorar o significado da música. Porque “Girls Like You” é essa música fofa, muito simples, mas quando você adiciona o vídeo, ela chega a outro nível.”

“O mundo está tão pesado atualmente, e há tanto acontecendo, então eu amo como essa música e clipe são mais leves,” ele continua. “Eu cresci, eu passei por muitas situações, fiz tudo errado, mas a principal missão por trás do vídeo é ajudar as pessoas a entenderem que nós temos uns aos outros. As pessoas definitivamente cometem erros, não há um ser humano nesse planeta que não tenha feito isso, mas se não apoiarmos uns aos outros, estamos ferrados.”

No clipe, uma câmera rotativa é usada para levar uma mensagem de que os homens também apoiam as mulheres, em uma interpretação um pouco mais moderna do clichê “por trás todo homem, há uma forte mulher”. Melhor, é sobre homens e mulheres apoiando uns aos outros, como aliados.

“Sim, eu amo isso!”, diz Levine. “Eu não sou a favor de isolar um único gênero, então sim, é tanto sobre empoderar as mulheres, como é também direcionado a um grupo confuso de homens que não sabem o que fazer… é como dizer ‘abram seus ouvidos e calem a boca’. Se conectem, se comuniquem. É a coisa mais importante, porque não podemos possivelmente entender o que é ser uma mulher. Nós temos que evoluir e melhorar um pouco. E grande parte disso é feito através da escuta”.

Foi uma grande missão, diz Levine, convidar uma lista de mulheres tão importantes para participarem do vídeo, o que envolveu ele andar por LA e implorar. Muito.

“Eu me lembro de quando começamos a falar sobre quem e como, e nós fizemos essa enorme lista de pessoas,” ele diz. “Todo mundo é muito sensível hoje em dia, e nós queríamos ter certeza de que nunca fosse interpretado como se estivéssemos cumprindo um checklist ou direcionar muito para uma única coisa.”

“Eu implorei muito. Mas eu sabia que acreditava no que o clipe seria, que entregaria uma mensagem às pessoas. Não foi um motivo egoísta – foi porque eu realmente acreditava que as pessoas gostariam de serem envolvidas. E todo mundo entendeu.”

Outra banda poderia ter sido acusada de performatismo, mas Levine tem um histórico de apoio às causas LGBT+, causas feministas, à Elton John’s AIDS Foundation, e pesquisa sobre câncer. “Girls Like You” parece mais uma extensão desse trabalho do que uma tentativa de ser relevante durante campanhas como #MeToo e Time’s Up.

“No começo, como todo mundo, eu estava com um pouco de medo”, ele admite. “Me esforcei muito para não me deixar levar pelo medo. Há tantas opiniões, tantas críticas e hipersensibilidade a tantas coisas. Eu achei que precisava deixar claro com o clipe que meu coração estava no lugar certo e minhas intenções eram puras. Mas o vídeo já saiu tem um tempo e não ouvi nenhuma reclamação ou crítica negativa, e eu acho que isso se deve a termos sido cuidadosos e respeitosos com as pessoas que falamos”.

“Não é uma declaração, é mais uma celebração, e uma esperança de podermos ser mais assim no futuro. Quando o Childish Gambino lançou “This is America” pouco antes de lançarmos o nosso clipe, eu fiquei tipo “Ok, fizemos o segundo melhor clipe do ano”. E eu me senti como se tivéssemos conseguido ser parte de um ótimo ano, no qual as pessoas estavam fazendo declarações através de seus visuais, não apenas fazendo aqueles vídeos bobos”.

É muito diferente da reação que o clipe de Animals recebeu em 2014, na qual críticos ficaram chocados pela aparição de Levine como um estranhão trabalhando em um açougue e obcecado por uma mulher (interpretada pela sua esposa, a modelo Behati Prinsloo), que ele fantasia em várias cenas sangrentas de natureza sexual. Estilizado como um filme de terror dos anos 80, é exagerado – claro, mas era para ser, e Levine não tenta esconder isso durante sua performance.

“Aquilo foi ridículo”, ele diz sobre as críticas, soando mais cômico do que irritado. “É o último clipe que eu esperaria receber tantas críticas naquele sentido. Era para ser assustador! Eu faço o papel de um doido, é literalmente um personagem de um filme. E aquela música é sobre tendências animais, eu estou cantando sobre comer alguém vivo… usem a imaginação.”

“É como assistir a um filme de terror e avisar as pessoas que fizeram o filme que você achou nojento”, ele diz, exasperado. “As pessoas estão muito apegadas à realidade e não conseguem diferenciar… eles levam tudo pelo lado pessoal”.

Você pode quase ouvi-lo tremer à menção da visita recente de Trump à Inglaterra: “Deus, eu não consigo falar sobre isso… isso seria assunto para três horas”, ele diz. “Eu nem vou falar sobre Trump. Para mim, é triste ver como as pessoas tem tanta raiva, e talvez é uma coisa boa para nós isolarmos essa raiva, mas eu realmente espero que consigamos resistir”.

“Acho que estamos sendo colocados à prova final, a força da nossa democracia está sendo desafiada… Estou muito mais antenado com o que está acontecendo no mundo porque estou muito mais preocupado. Isso pode ser o que vai despertar muito mais consciência que não existia antes”. Ele pausa. “Eu acho que falamos muito dele, no entanto”.

Alguns críticos não pouparam o Maroon 5 desde seu álbum de estréia, Songs About Jane. Lançado em 2002, chegou ao topo das paradas na Inglaterra, Austrália, França e Nova Zelândia, chegando ao sexto lugar da Billboard 200 no final de 2004 e levou a banda ao seu primeiro Grammy, por Melhor Artista Revelação. Um artigo de 2017 da Stereogum descreveu sua música como “difícil de se empolgar, mas tão difícil quanto de odiar com convicção… eles fazem papéis de parede musicais, no mínimo irritantes, no máximo inconsequentemente agradáveis”.

“Confie em mim, é uma dança”, diz Levine sobre as mudanças no som da banda. “Realmente é interessante, nós já estamos na ativa há anos, fomos criticados por todo mundo. Mas acho que depois de um certo ponto, se você está no jogo e está concentrado na bola, você se torna menos preocupado com o que as pessoas vão achar e só faz o que você acha que é o certo para a banda”.

“Para todas as pessoas que querem que façamos um álbum que soe como o primeiro, se nós fizéssemos isso de novo, eles perguntariam porque não superamos aquele cenário. A única coisa que eu digo para todas as bandas novas é “você não fará seus fãs felizes, então nem tente”.

“Mesmo quando eu era um garoto punk crescendo nos anos 90 eu era tipo… “Não! Isso é estúpido”, ele continua. “Se você ama uma banda, porque você não desejaria a ela o máximo de sucesso? Nenhuma banda pertence a ninguém. Essa é a coisa mais idiota que eu já ouvi na vida. É tão difícil ter sucesso como músico… Eu não tenho tempo para pessoas que tem essa mentalidade”.

Em uma entrevista de alguns anos atrás, Levine sugeriu que as coisas mais inovadoras estavam acontecendo na música eletrônica, agora ele acha que está mais no hip hop, apesar de reconhecer que inovação sempre está presente.

“Após os anos 90 e início dos anos 2000, o hip hop mudou seu rumo, foi tão avant garde”, ele diz. “Até mesmo hoje, há tantos artistas hip hop fazendo coisas inovadoras. Estão constantemente evoluindo.

“A Inglaterra vai me odiar por dizer isso, mas nós precisamos deixar de lado a idéia de que o rock ainda está vivo”, ele adiciona. “Está nostalgicamente vivo. Eu cresci com o rock, eu aprecio muito o estilo. Mas vamos lá. Aqueles artistas que estavam na capa da Rolling Stone, que faziam parte da cultura, no zeitgeist, eles não estão mais”.

Ele se pergunta se o rock está mais vivo “no lugar onde ele pertence” – na Inglaterra. Ele ama Arctic Monkeys. Mas há uma prevalência de rock para artistas que intencionalmente se entitulam dessa forma, reafirmando uma mentalidade antiga de serem uma banda de rock.

“Eu nem sei mais o que o Maroon 5 é, nós ocupamos um espaço estranho”, ele diz. “Mas eu estou tão cansado de ‘vocês não devem fazer isso, vocês não devem fazer aquilo’. Eu queria que uma banda fosse lançada e genuinamente perseguisse o máximo de fama.”

“Led Zepellin, The Who… essas bandas queriam ser famosas. Eles buscaram fama. Foi rock and roll querer que todos ouvissem seus discos. Eu não sei quando, talvez em 1991, deixou de ser legal você querer ter sucesso, e eu acho que essa é a coisa mais estúpida que eu já ouvi”.

Levine completa 40 anos em 2019 e ri quando se lembra de um momento, há 10 anos, quando ele sugeriu que talvez não estivesse na mesma banda quando tivesse essa idade.

“Talvez isso tenha sido eu sentindo que isso não aconteceria a essa altura”, ele diz. “Eu ainda acredito nisso! Sabe o que é? Eu acho que tenho bons amigos, e talvez um dia um bom amigo meu vai dizer ‘você está ridículo’. Mas ainda não chegou esse momento.”

Ele se sente relativamente confortável sobre o lugar do Maroon 5 na cultura pop. Melhor do que se sentia no começo. Ele se lembra de como a banda atraiu a ira dos irmãos Gallagher em mais de uma ocasião (eles tem um amor não recíproco por Oasis) – Noel os chamou de estúpidos em uma entrevista de 2015, independente de aparentemente estar em uma festa na casa de Mickey Madden, baixista do Maroon 5, em 2008, e Liam disse que eles eram um saco.
“Mas eu não mudaria nada”, declara Levine. “Eu sinto que a única forma de combater o ódio é se mantendo presente por tanto tempo que as pessoas simplesmente se acostumam com você. A coisa mais legal sobre a nossa banda é que nós nunca vamos ser associados com um período. Talvez um álbum seja. Várias pessoas dizem que o Songs About Jane foi maravilhoso e o resto dos nossos álbuns foram uma droga (vão se foder!). Mas não acho que as pessoas dizem que nós os lembramos de, tipo, 2003 ou algo do tipo. Isso não acontece.”

Ele concorda que realizar outros projetos possivelmente mantem ele com vontade de voltar de tempos em tempos para a banda, mais do que um sentimento de se tornar um artista solo (vários compositores já disseram que ele poderia fazer isso facilmente).

“O The Voice me ajudou a me acalmar um pouco”, ele diz. “É bom ter algumas distrações ao longo do caminho. Eu acho que se estivéssemos em turnê naquela época, ou fazendo mais álbuns, não teríamos durado tanto. De uma forma estranha, fazer aquele programa… de alguma forma aumentou nossa credibilidade? Eu não sei dizer como. Mas acho que a forma como o The Voice existe nos EUA, em comparação à Inglaterra, é que é acolhedor, as pessoas são entretidas por ele. E só de poder ajudar uma pessoa com a sua arte é uma coisa legal”.

Nós dissemos que já tínhamos o suficiente com essa conversa e ele se pergunta, como uma piada, se fez algo errado… “Eu disse algo que vá me encrencar? Não? Yuhu!”.

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