Adam Levine fala sobre a carreira em nova edição da Variety

Adam Levine foi eleito o “Hitmaker do Ano” pela revista especializada Variety e também estampa a capa e o recheio da edição desse mês da revista. Ilustrada por um photoshoot inédito assinado por Guy Aroch, a matéria traz uma longa entrevista onde o vocalista do Maroon 5 conversa sobre a carreira do Maroon 5, composições, colaborar com outros artistas, o programa Songland e também sobre como foi lidar com a perda de Jordan Feldstein, empresário da banda falecido em Dezembro de 2017. Leia a tradução na íntegra:

“Girls Like You” passou sete semanas no topo da parada, tornando a canção em um dos maiores hits do Maroon 5. Como isso aconteceu?
Foi uma decisão de última hora. Starrah compôs um verso e um refrão e eu pensei, “Essa música é tudo.” Eu precisei implorar, tipo, “Pessoal, a gente precisa colocar essa música no disco. Eu não sei porquê – a gente só precisa.” A mesma coisa aconteceu com “Sugar,” aliás. Eu sou bom sob pressão. Eu escrevi o bridge em um avião no meio da noite. “Maybe it’s 6:45 / Maybe I’m barely alive / Maybe you’ve taken my s— for the last time.” Eu estava, tipo, “Hã, interessante levando em consideração os tempos.” Eu vi essas palavras ganharem um novo sentido após o fato.

Olha o que acabou de acontecer: Nós tivemos uma eleição histórica com muitas mulheres aparecendo e se candidatando. Tipo, cara, a gente realmente consegue fazer isso! Por isso a iconografia do clipe é realmente importante – para lembrar a todos nós homens a apoiarem essas mulheres. Sejamos os pilares de força e apoio e não tomar a coisa na defensiva, ou alguma coisa que indique que eu faça alguma idéia de como uma mulher se sentiria. Continuar respeitando o que está acontecendo e não afirmar saber de alguma coisa. Ser apenas um par de ouvidos.

O que te conectou à difícil luta feminina?
Ter duas filhas. Mas ser um homem que é uma pessoa pública é um lugar muito complicado de estar. São águas difíceis de navegar. Você sempre quer estar no lado certo de alguma coisa que você acredita. Eu tenho duas filhas pequenas, e pensar sobre elas sendo maltratadas de qualquer forma – faz meu sangue ferver. Então nós fomos fundo nisso porque eu sinto que enquanto meu coração estiver em paz com esse conceito, eu nunca vou errar. No clipe, eu estava fazendo isso por elas e por minha esposa. Se alguém não entende as intenções, f***-se.

Você deu alguma indicação para a Cardi B sobre o verso dela?
Eu falei para a Cardi, “Eu quero que você faça algo que mostre seu poder como mulher e diga da forma que preferir.” Eu sabia que ela ia destruir esse verso e ia levar a música para um novo patamar. Ela foi vital. Eu implorei a ela para participar.

Qual foi o ápice da música?
O clipe. Uma vez que eu o vi tomar forma com o áudio da música, eu sabia que isso seria enorme, enorme, enorme! É engraçado ver o quanto que os clipes tem ficado em segundo plano, eles continuam mais importantes do que nunca, porque o visual correto no momento certo o torna genuíno e poderoso quando unido com a música certa. É explosivo. Eu precisei falar com cada uma dessas 25 mulheres, e isso foi um outro processo. Depois me perguntaram, “Você quer Behati e Dusty, sua esposa e filha, no clipe?” Num primeiro momento eu falei que não, pois não gosto de misturar minha vida pessoal com o trabalho, especialmente com uma criança, mas Eu pensei que isso poderia ser um desserviço à minha filha se não colocá-la ao lado dessas mulheres incríveis. Então fizemos isso, e pareceu realmente bom e certo. E se tornou muito maior do que eu pensava.

Apenas nos cinco últimos anos você afroxou as rédeas de ser o principal compositor do Maroon 5. Foi uma decisão difícil aceitar trabalhar com outras pessoas?
Sim e não. Você não pode fazer a mesma coisa para sempre. Você não pode compor sobre as mesmas músicas para sempre, mesmo que muitos de nossos fãs fossem preferir isso. … Nós nos contivemos por três discos inteiros, e chegamos em um ponto que precisávamos fazer uma mudança. Eu havia cansado todas as minhas habilidades como pessoa que tomou as rédeas. Eu estava sentindo, talvez inconscientemente, que eu precisava de ajuda. Ou não a estava recebendo.

Trabalhar com outros compositores não era algo que eu queria fazer. Eu não permitia nada fora do meu controle. Eu poderia ter confiado mais na banda, mas não o fiz. De qualquer forma, talvez me estender para outros compositores foi uma mudança positiva para todos nós como banda. E ainda nos deu duas grandes canções logo de cara.

A primeira foi uma participação em “Stereo Hearts” do Gym Class Heroes; A segunda foi o monstruoso “Moves Like Jagger.”
Essa que é a questão com música, cara. É como desenvolver os ouvidos para escutar uma música que é escrita sob-medida para Rihanna ou uma artista feminina e poder dizer “Eu consigo dar o meu toque nessa música.” “Moves Like Jagger” é um ótimo exemplo. Foi escrita para uma garota: “Ele tem os movimentos de Jagger.“ E eu fui o idiota com a audácia de dizer, “E se eu tivesse os movimentos?“ E todo mundo olhou para mim como se eu fosse um maníaco, mas eu sabia que estava indo na direção certa. A colaboração foi uma experiência – Apenas testando as águas – e foi muito natural. Nós não ficamos sentando e refletindo filosoficamente sobre qual caminho iríamos tomar.

Como você colabora? Qual o seu processo?
A melhor idéia vence. As pessoas mandam músicas e algumas vezes elas não precisam de nada, ás vezes precisam de muita coisa. Depende do tipo de projeção que eu consigo perceber com meus próprios ouvidos e ver se ela se expande daí. Compôr é algo sem ego; você precisa estar totalmente disposto a passar vergonha por apresentar uma idéia terrível, porque às vezes uma má idéia é a melhor coisa do mundo. Você precisa não ter nenhuma auto-consciência. É muito subjetivo. É divertido porque, por mais simples que música pop seja, é tão complicada em sua simplicidade.

Como assim?
Quando participo de debates [com amigos] sobre a busca por música pop contra a busca pela arte, eu sempre digo que, para mim, é muito mais aterrorizante – e isso te deixa muito mais vulnerável – tentar se conectar com todo mundo. Quando eu rejeito isso, dói mais. Então eu gosto desse desafio. Eu gosto de tentar agradar todo mundo.

Quão intensa é a competição por hits hoje em dia? 
Se existe uma música que eu me apaixono, eu luto o máximo possível para conseguí-la. Mas existem alguns incidentes nos quais, durante a luta, você se vê em situações difíceis. Eu tento me afastar o máximo possível disso porque, enquanto compositor, o dinheiro não pode ser problema. Você deveria estar pensando, “Qual a melhor coisa que a gente consegue escrever aqui, agora, com essas pessoas?” Enquanto esse pensamento permanecer inalterado e íntegro, o potencial é infinito. É tão difícil quando as pessoas tem agendas.

Você sabe quando tem um hit nas suas mãos?
Eu nunca sei. Se você parar pra pensar cientificamente, quando eu tive aquele sentimento, na maioria das vezes eu estava certo. Então sim, eu tenho um bom desempenho. Mas também tive uma paixão muito forte por músicas que não foram a lugar nenhum. Eu achava que “Won’t Go Home Without You” [do álbum de 2007 “It Won’t Be Soon Before Long”] seria um hit número 1, e todo mundo iria cantar essa música. E ela foi uma das músicas com pior desempenho. Você simplesmente nunca sabe – depende da cultura e do que estamos passando fora da música também.

Você recentemente precisou lidar com um grande golpe pessoal e profissional – a morte do seu empresário e amigo Jordan Feldstein.
Foi uma tragédia que impactou a todos nós e de longe um dos momentos mais tristes das nossas vidas, e a minha pessoalmente. Esse era um cara que eu conhecia desde que nós usávamos fraldas. Ele foi uma das pessoas mais importantes da minha vida desde cedo.

Como você decidiu reestruturar seu time de empresários na ausência de Jordan?
Foi brutal. Depois que tudo aconteceu, eu lembro que precisei refletir e dizer para mim mesmo, “Eu vou deixar tudo desmoronar, ou vou tentar manter tudo unido?” Em situações caóticas que são tão terríveis e doloridas, você precisa se impôr, sabe? Tomar as rédeas com cuidado e otimismo. Tomar o controle sem precisar ter muita coisa para lidar. Eu pensei, “Como faço tudo funcionar de novo?” Eu sei que tudo o que ele queria era que eu mantivesse tudo funcionando.

Com que frequência você se pega pensando nele?
Todo dia. Sempre vai ser algo que falta na minha vida. Eu surto; Eu choro. Nós construímos isso juntos, e nunca vai estar completo sem ele. Mas ao mesmo tempo, a gente sabe que ele quer que a gente continue firme.

Como Bruno Mars e Lady Gaga, você escolheu se auto-empresariar até certo ponto. Por quê?
Eu tenho quase 40 e tenho feito isso por muito tempo. Não preciso de babá.

É verdade que você não conversa com o A&R da Interscope quando se trata ta música do Maroon 5?
A gente conta para eles o que estamos fazendo, e eu preciso dizer, a falta de um A&R é uma bênção.Eu sou tão feliz de não ter que responder a ninguém.

Você tem sido um técnico no “The Voice” por 15 temporadas. O que você aprendeu sobre o negócio da televisão?
Eu não estou no negócio da TV. Eu estou e não estou. Qualquer coisa que a gente tente fazer é sob a forma de tentar fazer as coisas diferentes? E não sobre como nos encaixar? Eu acho que existe uma obsessão sobre se encaixar porque TV é meio que assustador. Tem essa nuvem escura de tecnologia, que nós estivemos vivenciando na indústria da música por um bom tempo. As pessoas vão parar de ver certos tipos de televisão como eles pararam de comprar álbuns e baixar músicas. Essas coisas são inevitáveis. Eu espero que o “The Voice” continue no ar por mil anos. Mas a verdade é que, talvez não fique. As pessoas querem o diferente.

Então por que fazer a competição “Songland” em uma emissora de TV?
Porque “Songland” é diferente. Ele abre uma janela sobre como é compor músicas – o tipo de fluidez de criatividade. Charlie Puth está no piloto, e você vai ver todos esses produtores diferentes e a forma como eles abordam músicas diferentes, o que eles fazem e não fazem e o que tirariam e o que iriam manter. Não é falso ou calculado ou previsível. É quase como ver um bolo de aniversário ser feito.

Então seria o “Batalha de Confeiteiros” de competições musicais?
Talvez de uma forma mais ampla, é como o “Shark Tank.” As pessoas adoram ver o homem por trás da cortina – e eu digo “homem” mas é uma citação; eles querem ver [quem está por trás] do Mágico de Oz.
Realmente removendo todas as camadas disso é exatamente o que o povo gosta.

Considerante que o Maroon 5 foi lançado há mais de 16 anos, você navegou por várias tendências de uma forma que poucas bandas se atreveriam. Como foi isso?
A gente tem orgulho disso porque aparentemente estar numa banda é crime a essa altura. Bandas que estão no cenário pop – ou que sobreviveram ao cenário pop – por onde andam? Imagine Dragons, One Republic, Coldplay e Maroon 5. Taí sua categoria de melhor grupo. O Grammy precisou mudar a merda da categoria porque não têm mais bandas. Agora qualquer colaboração conta. Cacete, a gente conquistou o mercado – e você f**** com a gente, Grammys!

Então onde vocês se veem – vocês são pop, rock, urban?
Uma coisa única dessa banda é que a gente sempre olhou pro hip-hop, R&B, todas as formas rítmicas de música, desde o momento em que escrevemos nosso primeiro álbum, até agora. O rock não está em lugar nenhum, na verdade. Eu não sei onde está. Se estiver ao redor, ninguém me avisou. Toda essa inovação e coisas incríveis que têm acontecido na música são hip-hop. É melhor do que todo o resto. Hip-hop é estranho e avant-garde e defeituoso e real, e é por isso que as pessoas amam. Meu objetivo é fazer músicas que não soam datadas 10 anos depois. Meu critério principal para uma música é, eu posso viver com ela para sempre? E se eu não puder, eu não tenho interesse por ela. É simples.

Como você se sente sobre fazer 40 anos?
Pode mandar! Quer dizer, eu não sei, o que mais eu poderia querer? Eu tenho uma família linda, uma esposa linda, dois bebês lindos e eu tenho dinheiro no banco, eu estou muito feliz com a minha carreira e o tipo de pessoa que eu me tornei e a pessoa que eu espero continuar sendo. P****, é assustador querer qualquer outra coisa. Eu sinto que eu já conquistei tudo além dos meus sonhos.

Idade é algo engraçado. Quando você tem 26 e eles falam merda, você fica tipo, “Vai se f***. Você não sabe de nada. Você vai ter a minha idade e vai odiar a pessoa que você era quando me disse essas coisas…” Olha, eu fiz o melhor que pude com meu cérebro de homem jovem. Eu não fui para a delegacia. Não fui preso. Para mim, 40 anos parecia velhice quando eu tinha 26. Inferno, 26 parecia velhice quando eu tinha 23, então é tudo relativo.

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